quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Próxima sessão: 2013.02.26

Tema Teatro


Responsável pela sessão

Alexandra Justino

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

2013.02.12 - Carnaval

E foi mesmo um Carnaval






Fernando, trouxe:

Excerto de "A tabacaria" de Álvaro de Campos

(...)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para àquem do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
(...)



O poema completo


A Helena Policarpo e o António Soares, leram




A FELICIDADE
Vinícios de Morais

Tristeza não tem fim,
Felicidade sim.

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar.
Voa tão leve
Mas tem a vida breve,
Precisa que haja vento sem parar.

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do Carnaval.
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou de jardineira
E tudo se acabar na quarta-feira.

Tristeza não tem fim,
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor.
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor.


A felicidade é uma coisa boa
Mas tão delicada também.
Tem flores e amores
De todas as cores,
Tem ninhos de passarinhos,
Tudo de bom ela tem.
E é por ela ser assim tão delicada
Que eu trato dela sempre muito bem.

Tristeza não tem fim,
Felicidade sim.

A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite, passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Pra que ela acorde alegre com o dia
Oferecendo beijos de amor.

O João leu


Sonho de um Carnaval
Chico Buarque

Carnaval, desengano
Deixei a dor em casa me esperando
E brinquei e gritei e fui vestido de rei
Quarta-feira sempre desce o pano

Carnaval, desengano
Essa morena me deixou sonhando
Mão na mão, pé no chão
E hoje nem lembra não
Quarta-feira sempre desce o pano

Era uma canção, um só cordão
E uma vontade
De tomar a mão
De cada irmão pela cidade

No carnaval, esperança
Que gente longe viva na lembrança
Que gente triste possa entrar na dança
Que gente grande saiba ser criança



Uma excerto da interpretação teatral da Alexandra Justino, com o texto completo em Link, Máscaras de  Menotto del Picchia



COLOMBINA  com ternura: 

     Como te amo, Pierrot... 

      
    ARLEQUIM 

      E a mim, cujo desejo te abriu o coração com a chave do meu beijo? A tua alma era como a Bela Adormecida: o meu beijo a acordou para a glória da vida! 

    CALOMBINA  fascinada: 

   Como te amo, Arlequim!... 

      PIERROT 

     desvairado pelo ciúme, apertando-lhe os pulsos,  
     numa voz estrangulada:  

      A incerteza que esvoaça desgraça muito mais do que a própria desgraça. Escolhe entre nós dois... Bendiremos os fados sabendo o que é feliz, entre dois desgraçados! 

      ARLEQUIM 

Dize: Queres-me bem? 

      PIERROT: 

   Fala: gostas de mim? 

     COLOMBINA, hesitante: 

 A Pierrot: 

  Eu amo-te , Pierrot... 

      A Arlequim: 

       ... Desejo-te, Arlequim... 

    ARLEQUIM, soturnamente: 

A vida é singular! Bem ridícula, em suma... Uma só, ama dois... e dois amam só uma!.. 

   COLOMBINA , sorrindo e tomando ambos pela mão: 

Não! Não me compreendeis... Ouvi, atentos, pois meu amor se compõe do amor de todos dois... Hesitante, entre vós, o coração balanço:  
  

   A Arlequim: 

O teu beijo é tão quente...                         

        A Pierrot: 

       O teu sonho é tão manso... 

Pudesse eu repartir-me e encontrar minha calma dando a Arlequim meu corpo e a Pierrot a minh’alma!  Quando tenho Arlequim, quero Pierrot tristonho, pois um dá-me o prazer, o outro dá-me o sonho!  
Nessa duplicidade o amor todo se encerra: um me fala do céu... outro fala da terra!  
Eu amo, porque amar é variar, e em verdade toda a razão do amor está na variedade...  
Penso que morreria o desejo da gente, se Arlequim e Pierrot fossem um ser somente,  
porque a história do amor pode escrever-se assim:  

    PIERROT  
Um sonho de Pierrot... 

    ARLEQUIM  
       
     E um beijo de Arlequim! 

A Alexandra Ferreira, trouxe cheiros do Carnaval do Brasil, aqui fica a lembrança



O António Gil e a Ana Maria leram:

“A Viagem de Théo” - Catherine Clément – Edições ASA - 1999



No confortável camarote do comandante Silva, o almoço esperava. Logo desde as entradas, Théo atacou.
- Parece que o teu primo é brasileiro de gema...
- Brutus? - espantou-se o comandante. - quem é que te disse?
- A tia Marthe, quem havia de ser? Porquê?
O comandante deu uma gargalhada. Brutus era brasileiro; portanto, não era «de gema», porque a expressão não tinha nenhum significado no Brasil. É certo que tinha um nome português, Silva, ao qual um belo dia se tinha vindo juntar um «Carneiro» que soava bem. Os arquivos portugueses da família atestavam, de facto, que um Silva havia emigrado para o Brasil no tempo das caravelas, depois nada mais se sabia do ramo americano. Produto de um casamento entre a genealogia portuguesa e uma bela Greta de família alemã emigrada no início do século XX, o primo Brutus afirmava que tinha sangue índio nas veias na sequência de uma ligação entre um antepassado seu e uma princesa de uma tribo, como Pocahontas. Porque ter sangue índio era chique no Brasil: descender de um indígena provava uma mestiçagem de alto nível entre o conquistador branco e o índio na sua dignidade de primeiro habitante do país. Mas o primo Brutus evitava explicar de onde lhe vinham os cabelos encarapinhados e a boca carnuda, porque no Brasil, quando se era de boas famí1ias, não se admitia ter sangue negro.
Tenho a certeza de que o antepassado português se apaixonou por uma das suas escravas africanas - concluiu o comandante. - O primo Brutus insiste de tal modo na ausência de qualquer gota africana no sangue que lhe corre nas veias que acaba por provar o contrário!
- Que salganhada - disse Théo. Descender dos índios é melhor? Porquê?
Ah! Porque os índios não eram escravos, bem pelo contrário! É claro que, ao princípio, tinham sido muito maltratados. Mas depois, um missionário de grande coração que se chamava Las Casas apercebera-se, a tempo, de que os seus concidadãos, tão bons católicos, escravizavam os delicados selvagens de coração puro, que não resistiam aos trabalhos forçados e morriam às centenas. Decidido a travar o genocídio cometido pelos seus compatriotas e consciente de que a caridade de Jesus não estava a ser praticada, o excelente Las Casas teve uma ideia de génio: convenceu o soberano a substituir os índios por escravos negros, mais sólidos, mais bem adaptados ao duro trabalho das colónias. De boas intenções está o inferno cheio e Las Casas não previra o deslocamento, para outras paragens, do genocídio que depois veio a denunciar em vão. Foi assim, a partir da perversão de uma ideia generosa, que começou o tráfico dos negros entre a Europa e a América.
- Mas os portugueses foram para a cama com as escravas africanas que tinham? - disse Théo.
E não só! A colonização portuguesa assentava num principio simples: tomar
mulher no local onde se desembarcava. No Brasil, havia portanto mestiços de negros e brancos, de negros e índios, de índios e brancos. E as religiões tinham-se misturado por intermédio das mulheres. Às índias, os brasileiros tinham ido buscar os deuses animais das florestas, o Curupira, génio dos bosques com dentes verdes, a extravagante Caipora fumadora de cachimbo e que cavalga nua um porco do mato, ou o Boro vermelho do rio Amazonas, um golfinho sedutor que engravidava as mulheres. De África, as brasileiras haviam herdado os deuses encolhidos nos porões dos navios negreiros, um panteão vindo do amigo reino de Daomé, hoje Benim. Obrigados a baptizarem-se, os escravos africanos fixaram o culto dos santos católicos, que caldearam alegremente com os seus próprios deuses. De tal modo que as religiões do Brasil formavam um carnaval desenfreado em que a dança e os tambores dominavam, que o mesmo é dizer a poderosa África.
- O batuque, tia Marthe! exclamou Théo. - Fixe!
Sim, o batuque. Assim recomeçara a lenta reconquista de África pelos escravos africanos. Os senhores eram implacáveis mas bons economistas. Ora, os escravos suicidavam-se engolindo terra: não era rentável. Para evitar tais prejuízos, os senhores autorizaram os escravos a bater nos tambores. Começaram os batuques: todos os tambores de África reunidos. Os deuses saíram das memórias escondidas com as línguas africanas. Depois surgiram secretamente os altares e as cerimónias clandestinas, hoje oficiais. Um dia dos idos de 1870, os africanos desceram as colinas do Rio e invadiram a cidade com os tambores. Foi o primeiro Carnaval.
Carnavais e procissões religiosas, tinha-as havido faustosas em Portugal. Para além do clero paramentado, desfilavam santos, diabos, imperadores, reis e rainhas, ferreiros, macacos, Vénus, Baco, São Sebastião crivado de flechas, São Pedro, São Tiago e Abraão. Essas loucas procissões emigraram com os portugueses. Os africanos adoptaram os reis e as rainhas, bordaram nos seus estandartes os totens, depois os distintivos sindicais e inflamaram o Carnaval com as suas danças e os seus tambores. As escolas de samba floresceram, o Carnaval brasileiro tornou-se célebre. A África ressuscitou pouco a pouco, de tal modo que converteu os brancos: eram inúmeros a partilhar os cultos africanos do Brasil. E quando não eram adeptos da África, voltavam-se para os índios, a quem iam buscar as plumas e os símbolos.
- Os índios legaram aos brasileiros as redes de descanso, o milho, o tabaco, as bolas de borracha e o costume de tomar banho nos rios - acrescentou a tia Marthe.
- E os africanos, o óleo de palma, o cafuné, o picante, os turbantes, os berloques, as contas de vidro! - disse o comandante Silva. - Sem esquecer a influência dos africanos muçulmanos. É por isso que o Brasil me agrada. Sentimo-nos no entroncamento do mundo...
- Diga ao Théo qual é a divisa que está escrita na bandeira do Brasil - sugeriu a tia Marthe.
- Tem razão. Num país onde se confundem desordenadamente o índio, o negro e o branco, a divisa brasileira afirma nobremente: «Ordem e Progresso».
- Sabes de onde vem, Théo? - perguntou a tia Marthe. - De uma espécie de religião inventada por um filósofo francês do século XIX, Auguste Comte. Às religiões de Deus, ele decidira contrapor a da Humanidade, que baptizou com o nome de «positivismo». Eram positivas as Ciências da sociedade, rigorosamente mantidas pelo encadeamento dos factos. Depois redigiu um Catecismo Positivista...
- Catecismo? espantou-se Théo. - E por que não um culto, já agora...
- Mas foi o que ele fez! Com um calendário que festejava Moisés, Carlos Magno, Descartes, o Proletariado e as Mulheres... Os fundadores da República do Brasil eram fervorosos discípulos de Auguste Comte: daí a divisa. Ainda se vêem no Brasil templos positivistas.
- Mais uma religião - concluiu Théo.
- Sem esquecer a saudade proferiu o comandante. - Um estranho sentimento um pouco triste, um pouco alegre, confiante e desesperado. Se não é uma religião, é um culto.
- O samba também - disse a tia Marthe.
- Vou gostar - disse Théo. - Mas o que é que vamos ver?
- Ah! Isso é um mistério... respondeu ele. - Mas os tambores estão garantidos.

A Cristina brindou-nos com mais um magnífica proeza trazendo-nos um texto de Clarice Lispector

Restos do Carnaval do livro Felicidade Clandestina


.
Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.
No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.
E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.
Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça - eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável - e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.
Mas houve um carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino Rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com os quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.
Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga - talvez atendendo a meu mudo apelo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel - resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.
Até os preparativos já me deixavam tonta de felicidade. Nunca me sentira tão ocupada: minuciosamente, minha amiga e eu calculávamos tudo, embaixo da fantasia usaríamos combinação, pois se chovesse e a fantasia se derretesse pelo menos estaríamos de algum modo vestidas - àidéia de uma chuva que de repente nos deixasse, nos nossos pudores femininos de oito anos, de combinação na rua, morríamos previamente de vergonha - mas ah! Deus nos ajudaria! não choveria! Quando ao fato de minha fantasia só existir por causa das sobras de outra, engoli com alguma dor meu orgulho que sempre fora feroz, e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola.
Mas por que exatamente aquele carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.
Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge - minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa - mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil - fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava.
Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido, sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.
Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos já lisos de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.

E a Vitória leu: JÚLIO DINIS, Uma Família Inglesa, cap. III (excertos)



Na Águia de Ouro

Era uma das últimas noites do Carnaval de 1855.
Havia menos estrelas no céu do que máscaras nas ruas. Fevereiro, esse mês inconstante como uma mulher nervosa, estava nos seus momentos de mau humor, o folgazão Entrudo ria-se de tais severidades e dançava ao som do vento e da chuva, e sob o dossel de nuvens negras que se levantavam do Sul. Graças à cheia do Douro, a cidade baixa podia bem prestar-se naquela época a uma paródia do Carnaval veneziano.
À porta dos teatros apinhava-se a multidão. (…)
Numerosos grupos de espectadores paravam diante das exposições de máscaras à venda e tornavam o trânsito naquelas ruas quase impraticável (…)
A animação era geral na cidade
Todos corriam com ânsia... a enfastiarem-se, fingindo que se divertiam.
Alguma coisa também na Águia de Ouro, a anciã das nossas casas de pasto, a velha confidente de quase todos os segredos políticos, particulares e artísticos desta terra; alguma coisa havia nesta modesta casa amarela do Largo da Batalha, que desviava para lá os olhares de quem passava.(…)
Sob aparências de modéstia, a Águia de Ouro parecia desta vez aureolada de não sei que majestade, condigna do seu emblema.

Foi assim, desta forma que a Mariana falou seriamente sobre o carnaval,




E terminamos com mais uma iguaria que a Cristina nos ofereceu (Laranja e Chocolate!)

Salivem!





segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Próxima sessão: 2013.02.12

Tema Carnaval


Responsável pela sessão

Vitória



terça-feira, 1 de janeiro de 2013

2013 - Sessões de Janeiro



Terça-feira, dia 15
Tema: Alcochete
(Dia de celebração da restauração do Município)


Responsável pela sessão: João Morais





Terça-feira, dia 29
Tema: Estado Zen


Responsável pela sessão: Cármen






LUZ

Sessão de 27-11-2012
Tema Luz




Responsável:  Mila




António Gil

O Mistério da Vela
Um ioguim vivia numa casinha nos subúrbios de uma cidade. Ao cair da noite,
saia para o campo e sentava-se a ler as escrituras com uma candeia de azeite,
deixando antes uma vela acesa no chão, a uma curta distancia de si. As
gentes da localidade começaram a ficar intrigadas com aquele ritual que se
repetia noite após noite. Que misterioso significado teria o acender aquela vela
a tão curta distancia? Que tipo de ritual estaria a pôr em prática aquele
ioguim? Será que tudo aquilo era necessário para recitar os textos sagrados?
Seria um ritual mágico? Todos comentavam entre si e tudo eram suposições e
conjecturas, mas ninguém sabia ao certo por que todas as noites o ioguim se
servia da candeia de azeite para ler e acendia uma vela perto de onde se
encontrava. Pessoas das aldeias mais próximas começaram a ir até lá para ver
o ioguim misterioso. Debatiam todo o tipo de hipóteses e espalharam-se toda
a sorte de rumores. Para alguns era um grande mágico, para outros, um
desperto vivo. Para muitos, estava a fazer práticas especiais para guiar a
mente até ao transe, e para outros ainda, tratavam-se de rituais para
despertar as forças sobrenaturais. Havia opiniões para todos os gostos. O
ioguim inspirava tanta curiosidade naqueles que o contemplavam, que cada
dia eram mais e mais, que decidiram organizar uma comitiva para ir falar com
ele e perguntar-lhe a razão do que fazia. Assim, certa noite, o alcaide da
localidade e várias pessoas interromperam o ioguim na sua leitura dos textos
sagrados para lhe perguntar:
- Senhor, pelo amor de Shiva, rogamos-lhe que nos esclareça por que acende
uma vela perto de si enquanto lê à luz da candeia. É alguma cerimónia
sagrada, um ritual mágico, uma técnica especial para treinar e mente, um
sortilégio antigo?
O ioguim sorriu com um ar entre o compassivo e o irónico, e disse:
- Ponho essa vela para que as traças e os mosquitos sejam atraídos para a sua
luz e não me incomodem tanto. Nada mais, boa gente.
Numa ocasião, Buda reuniu os seus discípulos e deu-lhes um sermão muito
breve, seguramente um dos mais breves e, no entanto, um dos mais
significativos que alguma vez transmitiu um mestre.
Limitou-se a dizer-lhes: “Venham e vejam”. Não lhes disse “venham e
julguem”, ou “venham e interpretem”, ou “venham e suponham”, ou ainda
“venham e façam conjecturas”. Não, simplesmente “venham e vejam”. Vejam
o que é; liguem-se com o que há. Não com o que esperamos ou tememos ver,
ou queremos imaginar que é, ou vemos através dos nossos filtros e do nosso
condicionamento.
Apenas: vem e olha.
*Ramiro Calle – Os melhores contos espirituais do Oriente – a esfera dos livros – Maio 2006















Texto da Helena Policarpo

BEIRA-MAR
(Sofia de Mello Breyner Andersen - Outubro de 1997)

Mitológica luz da beira-mar
A maré alta sete vezes cresce
Sete vezes decresce o seu inchar
E a métrica de um verso a determina
Crianças brincam nas ondas pequeninas
E com elas em brandíssimo espraiar
Em volutas e crinas brinca o mar








Texto da Helena Policarpo e do António Soares.

RESPOSTA NA TARDE ESCURA
(Crónica de Batista Bastos no Diário de Notícias de 21/11/2012)


Não me apetece escrever sobre estes tipos. Digo à Isaura. 
Não escrevas, sempre fizeste o que te apeteceu, diz ela. Não é bem assim, digo. Estamos na sala, por detrás dos vidros um pouco embaciados, e a chuva toca-os de leve. A tarde está escura e começam a acender-se as primeiras luzes, na rua e nos prédios.
Anoitece muito cedo; tarde escura, suja, como o País, escuro, sujo, nocturno e triste. Olho-a. Ela mantém-se aparentemente alheada, mas não o está. Sempre muito atenta, mesmo quando parece suspensa. Sorri agora. Conheço-a desde que ambos éramos novos e tínhamos a idade daquele nosso mundo. Eu estava desempregado, coisas da política, e metera-me noutras. Ela sabia de tudo e andávamos de mãos dadas, sem receio e alegres.
Sempre fizeste o que te apeteceu, repete. Como os nossos filhos, obstinados e recalcitrantes. Mas ganhei, penso. Os outros julgam que não, que perdi, mas a verdade é que foram eles os vencidos, estão lá, impantes e brunidos, porem vencidos. Mereceu a pena tanta luta, tanto desafio, tanto perigo, vertigem e desatino para chegarmos a isto? A Isaura não o diz: observa-me e afaga-me no rosto e na cabeça. Não é preciso mais nada.
Põe os pés na terra; voas em excesso e sonhas em demasia, dizes-me, frequentemente, mas sem me recriminar. Agora jó não tanto, mas houve vezes em que me esquecia de ter dinheiro, da carteira, e tu colocavas-me alguns trocos nos bolsos. Aqui há tempos, descobri, no bolsinho da lapela, uma nota velha de vinte escudos. Rimo-nos. Ainda sobrava um pouco, apesar de tudo. Nada de amolgar a esperança. A principal virtude da vida é ela estar sempre em acrescento, e nada, mas nada mesmo, é definitivo. Atrás de tempos, tempos virão.
Está bem: mas os anos não param, nem sequer um bocadinho. E eu sinto-me envelhecer. E estou na idade do condor; com dor aqui, com dor ali, com dor acolá. Ora, ora, os anos são somente números. Um dia, li que a vida feliz é, ao mesmo tempo, longa e breve. Até falámos nisso, recordo-me bem, tinhas sido operado a uma chatice grave, a família estava preocupada, e tu, antes de entrar no bloco operatório, piscaste-me o olho e disseste: quero arroz de polvo para o jantar.
Mas sabíamos para aonde íamos. Isso dizes tu agora. Nunca ninguém sabe para onde vai. Sobretudo os da nossa condição. Os processos de demolição da consciência humana são cíclicos. Ora, ora. Ora, ora, não. As coisas são o que são e são mesmo assim. Mesmo nas épocas mais infelizes , citavas Hemingway. “O homem não nasceu para a derrota. O homem pode ser vencido, mas nunca destruído.” Olha, tocaram à campaínha da porta. Esqueci-me de te dizer que os nossos netos vêm aí com os pais.
Estão jubilosos. Nota-se pelo brilho nos olhos. Ele endireitou os ombros que haviam descaído. Ela ajeitou o cabelo com as mãos. Caminham para a porta.        











Vitória

Vinicius de Moraes : Pela luz dos olhos teus

Letra e música: Vinicius de Moraes
versos de segunda
Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai que bom que isso é meu Deus
Que frio que me dá o encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus só p'ra me provocar
Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar

Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus sem mais lará-lará
Pela luz dos olhos teus
Eu acho meu amor que só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar.








Por fim, há hábitos do "clube de leitura" que não se dão por esquecidos:
- Petiscar.















quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Próxima Sessão - 27 de Novembro 2012

Tema - LUZ




Responsável pela sessão - Mila 




terça-feira, 20 de novembro de 2012

IMAGEM

Sessão de 13 de Novembro de 2012

Carmen, leu: de Cristina Carvalho - Lusco Fusco






A FADA DA VISÃO
In Lusco-fusco, Cristina Carvalho

A fada da visão
ofereceu-me a luz e a cor.
Houve um dia que eu te vi, Viktor e achei que eras bonito. Bonito e diferente de mim. Estavas à beira da lagoa. Pequenas libélulas transparentes, esverdeadas, azuladas, roxas, rosadas sobrevoam aos ziguezagues e poisam nas pedras húmidas das margens, escondendo-se no emaranhado dos canaviais e revolteando por cima das águas, para trás e para a frente atapetando o ar, polvilhando-o com os seus corpinhos finos, esguios e delicados.
Moramos quase no mesmo sítio, naquele descampado ali ao longe. Eu sei de ti e tu sabes de mim. Mas éramos muito pequenos quando nos vimos pela primeira vez. Os tempos passaram – não digo os anos passaram porque nós não temos anos nem idades, não temos nada, não somos nada nem ninguém… por isso, apareceste um dia ao fundo da floresta, figura que se podia confundir com um tronco de árvore, acastanhado, coberto de pó de terra, os cabelos lisos, brilhantes, os teus olhos falam para mim, olham-me, lêem os meus sonhos e tu, Viktor, aí estás a caminhar lentamente pelo carreiro da floresta e eu a esperar-te aqui no extremo da luz que vem nem sei de onde, um túnel de luz que varre, com a sua língua irisada de todos os tons da terra inteira, o ar que me envolve, o chão que suavemente piso e vens, aproximando-te rapidamente até que me alcanças a mim, que estou aqui parada há tempos e tempos sem fim. À tua espera.
Abraçamo-nos finalmente. Os nossos corpos sem espessura nem matéria confundem-se num só, o meu cabelo ruivo espalha-se pelos teus ombros, pelo teu rosto, pelo teu corpo e envolve-te completamente. Tu sentes o meu cheiro, percebes o meu sabor, deixas-te admirar, deslumbrar sem perceber muito bem o que te está a acontecer. Eu tento mexer em ti, festejar-te, alcançar as tuas cavernas inalcançáveis, secretas, deixa-me mexer em ti, afagar-te, explorar o teu corpo que existe e não existe, que eu conheço e não conheço. Se me deixares observar-te, Viktor, posso garantir-te que tudo será mais fácil entre nós. No desconhecimento dos corpos existe impureza, engano, desilusão.
Neste momento em que experimento conhecer-te, a fada da visão aparece. Dança à nossa frente, na penumbra de mistério que os nossos olhos fechados contêm. Experimentem fechar os olhos, de dia, num canto duma floresta, encostados a alguma árvore. Experimente! Há uma sombra qualquer, uma mancha que vai e vem, que dança mesmo à nossa frente sem nós a vermos, e que de repente se transforma num clarão inesperado, num raio de luz branca que nos pode cegar momentaneamente. São elas. São as fadas da visão. Essas manchas de luz que veem quando fechamos os olhos, por detrás do olhar, são as fadas da visão que nos visitam. Muitas vezes vemos as tais manchas a mexer-se, a aproximar-se, a afastar-se, manchas-clarão. São elas!
Se não fossem elas, se não fosse a sua presença, o meu olhar nunca te teria encontrado. Nunca teríamos a alegria de poder ver uma aurora, um crepúsculo, uma noite estrelada de verão ou de inverno, uma água, a cor duma planta, duma flor, a cor da Terra.
O que é que eu, Rocka, posso fazer ao olhar para uma fada-flor que se abre de repente, e da noite para o dia se alarga, entontece, que procura o meu olhar?
Nada. Não posso fazer nada a não ser olhar para ela. Simplesmente. E que o nosso olhar se procure e se entenda, que não sejam precisas as palavras porque tudo ficará a mais neste silêncio sublime.
Nem sequer tenho música dos pássaros para te oferecer. Hoje não tenho nada para te dar a não ser o que não quero dar, tudo o que me é proibido, afastado, longe, altíssimo como o voar de duas aves que se equilibram num espaço vazio e num cheiro qualquer. Pode ser o cheiro da floresta. Ou o cheiro do mar.
Gostei de ti, fada do olhar.




Vitória, leu: de Gonçalo Tocha, É Na Terra Não é Na Lua (excerto)






Rosa e Xana, leram Meditação n.º 14 (O ser e o parecer)




Vasco, leu: De William Shakespeare, Soneto 22 - Não Diga o Meu Espelho que Envelheço



Não diga o meu espelho que envelheço, 
se a juventude e tu têm igual data, 
mas se os sulcos do tempo em ti conheço 
então devo expiar no que me mata. 
Tanta beleza te recobre e deu 
tais galas a vestir a meu coração, 
que vive no teu peito e o teu no meu. 
Mais velho do que tu serei então? 
Portanto, meu amor, cuida de ti 
como eu, não por mim, por ti somente 
te cuido o coração, que guardo aqui 
como à criança a ama diligente. 
    Não contes com o teu se o meu morrer. 
    Deste-me o teu e o não vou devolver. 

Mila, leu de: Luigi Pirandello, Um, Ninguém e Cem Mil





Helena Amélia, leu de Charlie Chaplin - Necessito de um amigo; e de Oscar Wilde - Loucos e Santos
(Estes textos foram oferecidos aos quatro aniversariantes do mês de Outubro, pela Carmen.) 





- PRECISO DE ALGUÉM
Que me olhe nos olhos quando falo.
Que ouça as minhas tristezas e neuroses com paciência.
Preciso de alguém, que venha brigar ao meu lado sem precisar ser convocado; alguém Amigo o suficiente para dizer-me as verdades que não quero ouvir, mesmo sabendo que posso odia-lo por isso.
Neste mundo de céticos, preciso de alguém que creia, nesta coisa misteriosa, desacreditada, quase impossivel de encontrar: A Amizade.
Que teime em ser leal, simples e justo, que não vá embora se algum dia eu perder o meu ouro e não for mais a sensação da festa.
Preciso de um Amigo que receba com gratidão o meu auxílio, a minha mão estendida.
Mesmo que isto seja pouco para as suas necessidades.
Preciso de um Amigo que também seja companheiro, nas farras e pescarias, nas guerras e alegrias, e que no meio da tempestade, grite em coro comigo:
"Nós ainda vamos rir muito disso tudo"
Não pude escolher aqueles que me trouxeram ao mundo, mas posso escolher o meu Amigo.
E nessa busca empenho a minha própria alma, pois com uma Amizade Verdadeira, a vida se torna mais simples, mais rica e mais bela...

Charlie Chaplin

- Loucos e Santos

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde



 Helena Policarpo, António Soares e António Gil, leram TEMPO DE CINECLUBES
(extracto - autor desconhecido)




Em fins da década de cinquenta, recém-casados - eu com 28 anos e a Adelina com 21 - entrámos juntos para sócios do Cineclube Imagem, que frequentámos durante vários anos e onde tivemos
ocasião de assistir a filmes de grande qualidade e ler e ouvir críticas sobre tais filmes, sobre a sua estética e a estética do cinema em geral e, principalmente, a sua influência como veículo cultural por um lado, e instrumento de repressão por outro.
É evidente que o governo salazarista não morria de amores pelos cineclubes nem por quaisquer outras iniciativas que cheirassem a cultura, fora da rédea curta das suas próprias bafientas instituições. Não era Goebbels, um dos principais émulos da Alemanha nazi, que dizia que quando ouvia falar em cultura puxava logo da pistola?
Pois o Goebbels caricatural e provinciano cá do sítio, tudo fez para abafar os cineclubes logo à nascença. Só devido à pertinácia e coragem de alguns carolas, especialmente o Cineclube do Porto - o primeiro a aparecer em Portugal, em 1945, logo a seguir, portanto, à derrota do nazismo pelos aliados - o movimento cineclubista resistiu à repressão que sobre ele se abateu e, resistindo cresceu.

Quando a ele aderimos, já estava amplamente difundido em todo o território nacional, com clubes a funcionar em praticamente todas as cidades e algumas vilas. Em Lisboa, de  que eu tenha conhecimento (estou a escrever de memória e ao fluir da pena, sim, porque muito embora seja essa a realidade, não dá muito jeito dizer (“ao fluir do teclado”) havia, pelo menos, quatro: O Cineclube Imagem, o ABC- Cineclube, o Cineclube Católico, e o Cineclube Universitário.
Quem nos apresentou a ficha de inscrição foi o Vasco Granja. Lembram-se do homem que, sendo gago, falava pelos cotovelos, apresentando na RTP um programa de filmes de animação que faziam as delícias da garotada (e não só) e que foi um dos que mais tempo durou na história da Televisão Portuguesa? Faleceu em 2009.

Os filmes exibidos eram todos acompanhados de um caderno com a respectiva ficha técnica, biografia e filmografia do realizador e elaboradas críticas, onde se abordava a respectiva temática e estética, sempre do ponto de vista de interpretação marxista, clara ou encapotada, que os sócios, aos poucos iam aprendendo a descodificar.
Claro que a PIDE vigiava atentamente todas as actividades dos cineclubes e em especial ao Cineclube Imagem. Não será de estranhar pois que muitos de nós tenham sido presos. Assim aconteceu comigo, por exemplo. Ah, pois, não se julgue que o 25 de Abril aconteceu por acaso, porque uns tantos militares resolveram fazer um golpezito para se entreterem. O 25 de Abril aconteceu porque havia muita gente que durante os anos das trevas lutava para manter a chama acesa e criar as condições objectivas para que essas trevas se dissipassem.
Mas todo este preambulo acerca dos Cineclubes e que, sem contar, me fez alargar um pouco mais a conversa para falar de coisas que é sempre bom que não caiam no esquecimento, porque para as fazer esquecer já há muita e empenhada gente, este preambulo dizia, vem a propósito de um pequeno episódio que se passou connosco numa das sessões de cinema, julgo que no Capitólio.

Naquela tarde (as sessões, tinham lugar por volta das 19 horas, à saída dos empregos) o filme do programa era “Labirinto Infernal”, co-produção França/México, de 1956, realizado por Luis Buñuel.
Não era dos mais representativos do grande realizador espanhol, pois se fosse, a censura se encarregaria de obstar a que fosse visto cá em Portugal. Era um filme que, até certo ponto se poderia incluir no género de aventuras, mas o génio e o espírito iconoclasta de Buñuel lá estavam presentes, em pequenos apontamento como o episódio do padre queimando aos poucos as folhas do breviário, numa utilização pouco espiritual mas muito mais proveitosa naquele caso, do que rezar.

Acontece que, logo no princípio do filme, o “rapaz”, como então se dizia, passa com duas mulas carregadas de mercadorias por uma clareira onde um pelotão de soldados se prepara, de armas apontadas, para fuzilar uma fila de camponeses revoltosos postados na sua frente. Pois o nosso herói, com a calma e a audácia que lhe dá a certeza de aquilo ser tudo encenado para a câmara, como acontece com todas as fitas, atravessa impávido, à frente das mulas que puxa pela arreata, por entre as duas filas, de soldados de um lado e camponeses do outro.

Aí, o cabo do pelotão grita uma frase ameaçadora cujo teor exacto não me recordo, mas que seria mais ou menos “arreda, gringo de un cabrón, que te hodo nos cuernos !”
E o nosso homem, como resposta, limita-se a levantar o braço direito e com ele levantado, e fazendo ao mesmo tempo com os dedos aquela representação fálica que todos conhecemos, com o dedo médio erguido, a simular um pénis e o anelar e o indicador dobrados, configurando os indispensáveis “tintins” -representação em que os portugueses são mestres e que a maior parte do outros povos se limita a uma imitação pífia, sem nível, que se reduz apenas ao simples erguer de um único dedo - o nosso homem, dizia, que por acaso (e com isso ganhou de imediato a  minha simpatia) até fazia o gesto igualzinho ao nosso, continuou impávido e sereno, sem apressar o passo, sempre com o braço erguido, até sair da linha de fogo e prosseguir a sua olímpica caminhada.
Só depois se ouviu a descarga dos fusis e os camponeses caíram todos por terra, mortinhos da silva, sem um ai nem um estrebucho e o nosso homem, sem sequer virar a cabeça, lá seguiu até a câmara se esquecer dele e passar a outro plano.

À saída do cinema, a caminho do comboio e em busca do jantar, íamos comentando o filme, eu a salientar a excelência de umas cenas, e a Adelina a manifestar a sua preferência por outras.
“Só uma coisa não percebi”, diz-me ela a determinada altura,
“foi a razão daquela despropositada gargalhada geral, na cena de maior suspence, quando o homem passava em frente das espingardas prontas a disparar.”
É que, expliquei eu, o gesto que ele fez com os dedos constitui uma conhecida e popular representação fálica, que, naquelas circunstâncias, constituindo uma provocação, mais cómica se tornou.

“Ah, tornou a Adelina, só agora percebo porque é que a minha tia, sempre que - numa velha máquina de escrever que ela trouxe da América - eu escrevia apenas com o dedo médio de cada mão e com os outros encolhidos, porque isso me dava mais jeito, me batia sempre nas mãos e me dizia para não escrever assim.”
Não é uma ternura?

Epílogo:

Há dias, descendo a Avenida 25 de Abril, aqui em Almada, quatro ou cinco miúdas que não teriam mais de 14 ou 15 anos e que à minha frente caminhavam, vinham numa conversa tão desbragada, tão recheada de palavrões, que até o Bocage coraria de os ouvir…

Outros tempos, outros modos de estar.
Os palavrões não me incomodam, mas que o meu tempo era um tempo mais de causas, lá isso era.


No L.E.A. também há tempo para jogar.

















O Vasco trouxe o jogo "Quem é quem?", na versão L.E.A.
Composto por dois baralhos de cartas, o primeiro contem as descrições dos rostos de cada um.
(Cada pessoa foi autora da sua descrição)
O segundo, a foto da pessoa descrita.






Deitadas as cartas do jogo, coube ao grupo adivinhar quem era o colega descrito em cada carta, correspondendo às imagens do outro baralho.
















Não foi tarefa fácil.


































criatividade dos textos escondeu a evidência e o humor aguçou a curiosidade, ao desvendar de cada carta.